Um terço reprova plano de saúde

O ombro quebrado não foi o único problema que D. T. C., de 74 anos, teve depois de uma queda em casa. Ao acionar a operadora do plano de saúde, a idosa descobriu que não tinha direito à internação e ao material cirúrgico para a operação.

A situação dela é semelhante a de muitos usuários, segundo pesquisa de percepção social dos serviços de saúde feita pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e divulgada ontem: um terço dos clientes de convênios médicos reclama da não cobertura de doenças e procedimentos.

Na pesquisa, foram ouvidas 2.773 pessoas de todo o País. A falta de cobertura foi a segunda reclamação mais frequente entre os usuários de convênios, atrás apenas do preço das mensalidades, líder do ranking de insatisfação. A terceira queixa mais comum é o fato das seguradoras não pagarem alguns tratamentos.

“As reclamações de não cobertura e falta de pagamento são bem similares”, explica a técnica de planejamento e pesquisa do Ipea, Luciana Servo. “Juntas, as queixas incomodam mais os clientes do que o preço da mensalidade”, diz.

Para a administradora K. S. C., de 38 anos, nora de D., o efeito da carência e limitações na cobertura médica são mais graves do que o valor dos convênios. “A gente nunca tinha usado o plano de saúde. Não dá pra saber se é bom antes de realmente precisar. A gente até paga caro, mas espera que tudo se resolva quando preciso”, completa K.

Em nota, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), órgão regulador do setor de convênios, afirma que todos os problemas apontados na pesquisa “estão sendo tratados com prioridade”.

A agência atribui parte das queixas aos “planos de saúde antigos”, anteriores à lei de regulamentação das empresas. Pela legislação em vigor, a ANS obriga a seguradora a listar em contrato todos procedimentos, tratamentos, equipamentos cobertos e carências.

“Os detalhes do contrato devem ser observados pelos clientes”, ressalta a técnica do Ipea. A pesquisa avaliou também a percepção do brasileiro em relação ao Sistema Único de Saúde (SUS). O acesso gratuito ao serviço médico e aos medicamentos é apontado como o principal benefício do sistema público de saúde.

“São serviços não oferecidos no setor privado. O usuário de convênio particular identifica isso como benéfico e carente no sistema particular”, observa Luciana. No SUS, o estudo do Ipea aponta as filas nos hospitais e postos, a demora entre o agendamento e a realização da consulta e a falta de médicos como os principais problemas.

A avaliação é dos próprios usuários do sistema. Maria Aparecida Miranda de Paula Machado, doutora em saúde pública e professora da Universidade de São Paulo, reconhece que faltam médicos especialistas no SUS e sugere a criação de redes que “conversem entre si” como alternativas para contornar o problema da demora nos exames e consultas. “Seria uma forma de regularizar o que é feito hoje por muitos pacientes”, afirma.

A PESQUISA

Percepção do brasileiro em relação aos serviços de saúde.
Pesquisa realizada em novembro de 2010, com 2.273 pessoas

SERVIÇO PÚBLICO (SUS)
Pontos positivos
Acesso gratuito – 53,2%
Atendimento sem distinção – 48,9%
Distribuição gratuita de medicamentos – 33,4%

Problemas
Falta de médicos – 58%
Demora para ser atendido – 35,9%

CONVÊNIOS PARTICULARES
Pontos positivos
Rapidez para realizar consultas ou exames – 40%
Benefício oferecido gratuitamente pelo empregador – 29,2%
Liberdade para escolha do médico que irá atendê-lo – 16,9%

Problemas
Preço da mensalidade – 39,8%
Não cobertura de alguma doença ou procedimento – 35,7%

FELIPE ODA
LAIS CATTASSINI

JORNAL DA TARDE - GERAL

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