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PLANOS DE SAÚDE E A MERCANTILIZAÇÃO DA MEDICINA


Data: 6/10/2009
Fonte: Diário da Manhã

A comunidade médica vem assistindo e sofrendo neste transpor de milênio a uma das mais nefastas imposições pelas empresas de seguro-saúde. Neste embate de empresários da saúde versus usuários, o médico tem sido a principal vítima.

A cada ano, desde a institucionalização do plano real, este obreiro da saúde, antes considerado pela sociedade como de respeito e dignidade, por lidar com o de mais sagrado, saúde e vida, vem se constituindo de forma ignominiosa, e enganosa no meio mais fácil de enriquecimento dos empreendedores de convênios médicos.

O mais deplorável neste contexto é que o médico, partícipe maior de todos os serviços comprados pelo usuário, praticamente não tem a quem recorrer, a quem acorrer para receber dignamente pelo trabalho prestado, e o que é mais desalentador, de exercer de forma ética, técnica e cientificamente correto a Medicina. Parece ser o apocalipse do que Hipócrates preceituava como o exercício digno dessa profissão cujos desígnios maiores são o bem-estar, saúde, enfim a vida do ser humano.

Para empresas que comercializam a saúde só interessam as planilhas de ganhos exorbitantes, com imposição de normas e cláusulas nada éticas, tendo no trabalho médico o instrumento de marketing imediato. Consta do contrato de trabalho entre as empresas e o médico que não há vínculo empregatício, podendo a qualquer momento, no interesse da empresa contratante, ser o profissional desautorizado a atender usuários daquele plano.

Os contratos das empresas de saúde constituem autêntica antítese do código de ética médica. As cláusulas de direitos e deveres de algumas empresas encerram um verdadeiro acinte, afronta aos ditames de uma boa prática profissional. Esta é apenas uma mostra de como a profissão está aviltada, subvertida com inversão de atribuições.

Cita-se aqui, a título ilustrativo, o fato de um médico que sumariamente foi desligado do “staff de credenciados” por ter, de forma criteriosa e ética, solicitado um exame complementar para um usuário, cujo contrato não contemplava tal procedimento. O paciente foi ressarcido das despesas via judicial, mas o médico, conforme contrato de prestação de serviços com o seguro-saúde, foi peremptoriamente desvinculado sem direto de reparos moral ou financeiro.

No evoluir desse descalabro, dessa conspurcação de valores e princípios ético-profissionais, os médicos poderão se tornar, quem sabe, meros despachantes, representantes, escrivães dos planos de saúde, cúmplices desse sistema, que fazem do ser humano mercadorias como outras quaisquer, sem nenhum respeito pela dignidade do cliente e do prestador de serviços de saúde.

Poderíamos aqui fazer algumas reflexões , elucubrações dos motivos dessa deturpação na relação planos de saúde/usuários/médicos. De quem seria a culpa ? Em primeiro lugar, do próprio médico.

Enquanto houver doutores da Medicina que se propõem a praticar uma consulta pelo vilipêndio de R$ 30 (honorários de um corte de cabelo ou aparas e limpeza de unhas), cirurgias de médio porte a R$ 100 ou 200 (custo de uma revisão de moto), com todo respeito que merecem esses profissionais, a classe caminhará pari-passu para a subserviência ao sistema reinante.

É de causar espécie, o fato de empresas de convênios majorarem os custos contratuais para os clientes, sem, no entanto, repassarem estes reajustes para os prestadores de serviços. Algumas chegam a usar em suas propagandas aumento considerável em suas receitas anuais. Uma prova da relação nada equitativa, não equânime, nada ética, pouco honesta entre os empreendedores e prestadores de serviços médicos.

E os órgãos representativos, defensores da categoria, pugnadores que são da boa prática médica, da Medicina voltada para o humanismo, da dignidade profissional?

Pouco têm feito pela reversão do “status quo” imperante. Por mais empenhados, engajados que sejam os lídimos representantes da profissão, com slogans de efeitos eleitoreiros, assembleias, conferências, medidas normativas, tudo constitui lugares-comuns, refrões gastos e comezinhos, sem nenhum efeito prático.

É a consolidação de uma realidade nacional , onde nós médicos, enquanto súditos desse sistema, aceitando de forma servil e inermes a trabalhar com honorários nada honoríficos, continuaremos os profissionais com ingentes deveres com a vida do próximo, mas sem dignidade com nossa própria vida.

 

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